O que é O Que Fazer? hoje?
Mais de um século depois de sua publicação, qual o significado do livro O Que Fazer? Questões candentes do nosso movimento, brochura publicada por V. I. Lênin na Rússia em 1902?

Evento de lançamento do livro O Que Fazer? Questões candentes do nosso movimento, no Sindicato dos Jornalistas em São Paulo (SP), organizado pelo PCBR e pela UJC. Foto: O Futuro.
Por Stella
O Conselho Editorial do Órgão Central do PCBR escolheu a brochura O que fazer? Questões candentes de nosso movimento, de V.I. Lênin, para iniciar um trabalho de publicação de literatura marxista-leninista, visando munir trabalhadores e militantes brasileiros com o conhecimento dos maiores avanços teóricos da história de nosso movimento em todo o mundo.
Publicada em preparação para o II Congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo, a brochura apresenta os pilares da teoria leninista da revolução, que estabeleceria as bases ideológicas para a organização do partido bolchevique, partido de vanguarda da revolução socialista na Rússia, e inspiração de todos os Partidos Comunistas subsequentes.
A nova edição, publicada pelo Selo Em Defesa do Comunismo sob a direção do Conselho Editorial do PCBR, conta com um prefácio robusto do Secretário-Geral, Gabriel Lazzari, introduzindo a leitura dos comunistas sobre esta obra fundamental da tradição revolucionária, e será revendida por todo o Brasil por um preço acessível. A reedição da obra servirá simultaneamente à divulgação mais ampla da teoria revolucionária como também para garantir a independência financeira de nosso Partido, que não recebe um centavo da burguesia para sustentar suas atividades.
A gravura que estampa a capa do livro foi feita pela camarada Ana Vieira, ilustrando o projeto da Torre de Tatlin, Monumento à Terceira Internacional projetado por Vladimir Tatlin entre 1919 e 1920 para estar à serviço do Estado Socialista, comandado pelo proletariado após alguns anos da Revolução de Outubro de 1917. O monumento, que nunca saiu do papel, era uma forma de romper com a ideia de monumentos meramente heróicos, projetados para a construção de figuras individuais, dando lugar a monumentos que pudessem, de fato, construir o futuro que estava por vir. O monumento remete à analogia com a construção civil que Lênin faz ao apresentar o jornal como andaime para estruturar a construção que seria o Partido revolucionário e a consciência de classe.
Em O Que Fazer?, Lênin apresenta uma concepção científica dos processos revolucionários e aponta como estruturar, na Rússia de 1902, uma organização política capaz de unificar a classe trabalhadora e dirigi-la para a tomada do poder político contra a brutal tirania dos tsares, monarcas absolutistas da Rússia. Ao mesmo tempo, combatia as tendências liberais do movimento operário russo, que, com a desculpa de que o marxismo precisava de uma “atualização” (“contra o dogmatismo” e apelando à “liberdade de crítica”), abandonavam os princípios fundamentais do comunismo.
Mesmo 120 anos após sua publicação, avaliamos que a brochura segue contendo lições fundamentais para a luta revolucionária. Longe de tratar-se de dogmatismo, aprender as lições das experiências revolucionárias do passado a manter com rigor e ortodoxia os princípios ideológicos do marxismo-leninismo é, para nós, parte fundamental da atividade diária dos comunistas e a única forma de desenvolver nas massas a consciência revolucionária e direcionar num sentido revolucionário a luta de classes do proletariado.
Por isso, rejeitamos enfaticamente todas as posições que reduzem a importância da teoria revolucionária, seja sob o pretexto de que estaria “desatualizada”, seja pela noção de que a ação imediata teria mais importância do que qualquer objetivo de longo prazo. Reiteramos a máxima de Lênin: “sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário”, o que representa não uma subestimação da importância do movimento e da ação prática, mas a necessidade de jamais ignorar o horizonte de longo prazo do proletariado – a revolução e a construção do socialismo –, em nome da ação imediata do movimento, limitando-a ao que é “possível agora”.
Sem se limitar a apenas reafirmar a importância da teoria, Lênin apresenta uma proposta de como construir uma organização revolucionária capaz de transformá-la em ferramenta de orientação do movimento e de elevação da consciência das massas – o Partido Comunista, destacamento de vanguarda da classe trabalhadora.
Para orientar a construção dessa organização, Lênin entra em uma polêmica contra tendências chamadas de “economicistas”, que pregavam que a construção do movimento revolucionário deveria priorizar as lutas espontâneas dos trabalhadores, em cada fábrica, por melhores condições de vida (luta econômica), afastando dos trabalhadores a luta por democracia, contra as opressões de outras camadas da população e pela conquista do poder em todo o país (luta política), que, segundo estas tendências, dispersaria as forças dos trabalhadores e afastaria os interessados no movimento.
Lênin demonstrou que essas tendências deixam os trabalhadores à mercê das ideologias dominantes e restritos apenas a suas próprias lutas locais, sem conseguir dirigir um amplo movimento de oposição à ordem capaz de atrair as demais camadas oprimidas e apresentar uma alternativa de poder político, condição necessária para elevar a unidade e consciência do movimento revolucionário.
Contra estas ideias, Lênin defende que o movimento deve articular todas as formas de luta de classes (política, econômica e ideológica) num mesmo sentido revolucionário, o que só pode ser realizado por um Partido Comunista que, unindo os elementos de vanguarda da classe trabalhadora, seja capaz de, em todas as circunstâncias, realizar o trabalho de elevação do grau de organização e consciência da classe, utilizando cada luta espontânea como oportunidade para canalizar o descontentamento num mesmo sentido de ruptura contra a ordem capitalista e organização do poder revolucionário do proletariado.
Logo, o desenvolvimento teórico empreendido por Lênin em O Que Fazer?, não rejeita as lutas parciais por reformas econômicas dos trabalhadores, mas sim orienta a sua subordinação à luta política unificada contra o poder burguês e à estratégia socialista.
Para construir essa consciência socialista e elevar o grau de organização e unidade da classe trabalhadora, Lênin propõe a ferramenta fundamental para desenvolver os laços políticos e organizativos: um jornal político nacional, produzido por uma organização revolucionária profissional formada pelos destacamentos mais conscientes da classe.
Esse órgão pode ser entendido como o “andaime” da construção do Partido de vanguarda e da consciência de classe que, mesmo inacabado, estabelece as primeiras estruturas do Partido revolucionário e delineia o formato geral da construção que está por vir.
Em O Que Fazer?, Lênin demonstra diretamente a ligação das tarefas revolucionárias de elevação da consciência com o combate ao trabalho artesanal, amador, produzido pelos pequenos círculos locais existentes à sua época. O profissionalismo, para Lênin, não é apenas uma questão de método de trabalho, de maior eficiência das atividades revolucionárias, mas também a expressão direta da necessidade de ligações profundas e de caráter nacional entre cada pequena luta ou trabalho local e a construção da consciência revolucionária em todo o país, sem a qual não há revolução.
Sem um trabalho de conteúdo nacional, profundamente centralizado, não é possível superar os estreitos limites da consciência local, corporativa, de um espaço particular ou de uma categoria, e, portanto, não é possível colocar o poder político dos trabalhadores, o socialismo, na ordem do dia.
Isso significa dizer que a própria concepção da artesanalidade do trabalho da social-democracia não residia apenas em aspectos técnicos da sua capacidade ou não de produzir materiais (panfletos, jornais locais e etc.), mas sim no caráter imediato daquela luta, que se dirigia apenas às demandas locais, e não numa luta política organizada e unificada.
Por isso, também nós hoje, ao trazer estes princípios para nosso tempo, nos colocamos a tarefa de estabelecer um jornal político para todo o país, por mais que hoje existam diversas outras formas de comunicação política (as quais também utilizamos). O jornal, diferente de outras mídias, é um organizador coletivo, que não apenas difunde as ideias, mas permite estabelecer formas de organização presenciais e cotidianas dos trabalhadores, combatendo diretamente através desse esforço tanto o espontaneísmo (culto à luta desorganizada e imediata) como também o localismo, ou seja, a priorização das lutas “particulares” de cada local e não das tarefas fundamentais da classe trabalhadora como um todo, o que também prende os trabalhadores de cada localidade à sua consciência espontânea, imediata, e prejudica a elevação do grau de organização e unidade da classe.
Em nosso Partido, hoje, um exemplo dos erros destas correntes pode ser encontrado no trabalho do Comitê de Chapecó, em Santa Catarina. Apesar de produzirem um trabalho de disputa através da página local de Instagram, a Chapecó Crítica, os camaradas passaram recentemente a defender a prioridade dos métodos de comunicação audiovisual e da internet frente ao jornal político nacional e a completa autonomia para a página local que, segundo eles, seria “mais avançada” que o trabalho nacional do Partido.
Não contestamos a necessidade de um trabalho sistemático de agitação e propaganda em cada localidade, associando as questões mais candentes na localidade ao programa e aos problemas nacionais. Mas acreditamos que é um erro limitar e priorizar o trabalho partidário à comunicação local, às pautas particulares, o que restringe o trabalho de vanguarda e limita a consciência dos trabalhadores ao especificamente local.
Formas ditas e vendidas como mais “apropriadas” ao nosso tempo, mais bem acabadas para uma sociedade que funciona por meio da rapidez de compartilhamento de informações de vídeos e conteúdos nas redes sociais só serão mais efetivas na medida em que tornarem-se capazes de articular cada problema local à consciência nacional e desenvolver a organização revolucionária nos locais de trabalho no médio e longo prazo, um trabalho que não é linear e terá altos e baixos. Se compartilhamos o entusiasmo com o crescimento do trabalho político revolucionário em cada local, a lição de O Que Fazer? permanece, para nós, profundamente atual: sem sólidos laços nacionais e uma direção ideológica coesa, o trabalho local dos círculos, marcado pelo caráter pessoal de seus esforços, é frágil e oscila com as marés da luta de classes.
No prefácio à edição que publicamos, o camarada Gabriel Lazzari nos esclarece muito bem esses termos:
A unificação do partido sob um jornal político único para todo o país não era apenas a forma de criar laços entre os diversos grupos, círculos e organizações social-democratas. Lênin, afinal, está partindo do debate sobre a consciência de classe. Para os economicistas, era preciso apenas ir atrás, na “cauda”, do movimento espontâneo, que invariavelmente era local: tratava-se de greves e motins operários, geralmente ligados às condições de trabalho em sua fábrica ou em um conjunto de fábricas em uma mesma cidade. A consciência de classe espontânea refletia esse processo de luta local e criava também, por consequência, uma consciência “localista” nos operários. Os militantes social-democratas tinham desenvolvido diversos jornais locais, em um esforço de iniciar o trabalho de agitação e de propaganda. No entanto, por um lado, esses jornais acabavam, naturalmente, refletindo a luta puramente local e econômica - o que ajudava a manter confinados os trabalhadores em seu conhecimento sobre a situação política de todo o país -, e, por outro lado, dispersavam os esforços necessários, fazendo com que prensas fossem capturadas pela polícia secreta e fechando jornais que, não raramente, não passavam de duas ou três edições. A construção de um único jornal político para o POSDR era, também, a exortação para que se abandonassem quaisquer jornais locais, privados, de “círculo” e não de Partido.
Para nós, portanto, O Que Fazer? segue apresentando princípios fundamentais de nosso movimento que não estamos dispostos a abandonar. Para os comunistas brasileiros, rebaixar a luta dos trabalhadores aos interesses econômicos mais imediatamente acessíveis, seja às reformas “possíveis” agora, seja aos interesses “de seu local”, limita a consciência dos trabalhadores e não contribui com nossa tarefa estratégica e essencial: a construção de um exército proletário capaz de, em cada luta particular, dar passos decisivos para a conquista do poder do proletariado e a construção do socialismo. Não estamos dispostos a reduzir o escopo de nossas tarefas em nome das conquistas mais imediatas, e acreditamos que o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário e nosso Órgão Central, nas mãos do leitor, são hoje as ferramentas fundamentais para rumar nessa direção.